Linguagem Inclusiva – uma realidade plausível

A Língua é a nossa principal ferramenta de comunicação, seja ela oral seja escrita. Saber usá-la adequadamente, para que ninguém se sinta excluído, é fundamental em uma sociedade plural. Com as constantes mudanças sociais, é natural que o nosso vocabulário também precise ser atualizado. A linguagem inclusiva é aquela usada para evitar preconceitos, discriminações e ofensas a indivíduos ou grupos, visando garantir a todos a igualdade constitucional. Significa falar e escrever tomando cuidado ao escolher palavras, as quais demonstrem respeito a todas as pessoas, sem privilegiar umas em detrimento de outras. Esse é o objetivo de quem usa essa linguagem. 

Discriminação

É bastante comum, no dia a dia, reproduzirmos, “automaticamente”, preconceitos que reforçam hostilidades por falarmos e escrevermos da maneira como fomos alfabetizados. Sem nos darmos conta, reiteramos, pelo uso da linguagem, o modo pelo qual a nossa sociedade perpetua a opressão de categorias minorizadas da nossa sociedade, especialmente as mulheres.

“Uma das formas mais sutis de transmitir essa discriminação é por meio da língua, pois esta nada mais é que o reflexo de valores, do pensamento que a cria e o pensamento.[…] Assim, a língua não só reflete, mas também transmite e reforça os papéis adequados para mulheres e homens em uma sociedade.”

Franco & Cervera, tradução de Beatriz Cannabrava

Questão de cidadania

A língua é uma ferramenta viva e um dos instrumentos mais efetivos para essa evolução. A busca por substituir marcadores de gênero no discurso é um processo que explicita respeito e empatia, princípios básicos que deveriam reger as relações sociais. Assim como as técnicas de linguagem simples, que buscam dar acesso universal à compreensão das informações contidas em textos, a linguagem inclusiva também é uma questão de cidadania. 

Ainda vivemos em um sistema patriarcal

Muitos dos nossos valores, em especial a comunicação, foram estabelecidos tendo como referência um sistema patriarcal, inegavelmente construído a partir dos interesses dos homens. Encontramos em nossa linguagem palavras e expressões que induzem aspectos positivos ao sexo masculino e negativos ao sexo feminino. Os exemplos que seguem demonstram bem como o mesmo vocábulo tem um significado totalmente diferente quando se troca de gênero. 

Governante – que ou aquele que governa. 

Governanta –mulher que administra uma casa alheia. 

Mundana – prostituta, meretriz. 

Mundano- indivíduo que aprecia os bens e prazeres deste mundo. 

Marcações com “X” ou  “@” não fazem a inclusão

Cada vez mais, deparamo-nos com posts e campanhas de comunicação usando o X ou @ para eliminar marcações de gênero, por exemplo, “Todxs xs candidatxs”, “Prim@s maravilhos@s”. É uma tentativa de fazer a inclusão de pessoas não-binárias e fomentar a discussão sobre a igualdade de gêneros. Contudo, X e @ não são recursos inclusivos, uma vez que criam problemas de leitura para deficientes visuais, que utilizam programas leitores de texto; para pessoas com dislexia; alfabetismo elementar, em processo de aprendizagem da leitura ou que simplesmente não tenham sido informadas sobre o significado desse código específico. Somente esse tipo de atitude positiva não promove uma real mudança na maneira de pensar mais inclusivamente. Não faz muito sentido ser neutro sem ser inclusivo. 

Todes?

Em português e, sobretudo, em países de língua espanhola, algumas pessoas têm usado ‘e’ como forma de atenuar ‘o’ masculino e ‘a’ feminino. “Sejam todes muito bem-vindes! Olá Amigues!” Assim como X e @, expressa apoio `a causa e tem a vantagem de ser pronunciável. No entanto, essa maneira simpática de saudação, no intuito de ser mais inclusivo, só se sustenta em meia dúzia de frases. Por exemplo, como usar pronomes possessivos, pronomes indefinidos, artigos definidos e indefinidos? “Meu amigo, alguma amiga, o amigo, uma amiga”, como ficariam nesse pretenso gênero neutro? Chamar um homem de ‘minha amigue’ pode até ser provocador, mas não acaba com o binarismo e ainda cria confusões, especialmente na linguagem formal escrita. Fato é que não existem regras previstas nos dicionários, corretores ortográficos ou manuais de redação e sequer há uma unanimidade entre os que apresentam soluções para aplicar a letra “e” como indicador de gênero.

Sexo ou gênero

O respeito ao próximo inclui considerar a existência de diferentes identidades de gênero, independentemente de aparência, de crença religiosa, de cor de pele, de orientação sexual, de origem e de idade. Será que é, realmente, necessário perguntarmos sobre o gênero escolhido por uma pessoa? É preciso entender a diferença entre a palavra “sexo” e “gênero”. O termo “sexo” é o indicador estritamente biológico, enquanto gênero é o termo reconhecido inclusive juridicamente, o qual indica a orientação sexual escolhida. Quando for realmente necessário ou solicitado que se fale em “qual gênero”, o ideal é que sejam oferecidas outras opções além das alternativas binárias “homem ou mulher”. 

Costumes arraigados

Certamente que é possível, mas sobretudo necessário, fazermos o uso de uma linguagem  inclusiva, sem prejudicar a norma-padrão da língua portuguesa. Existem alguns macetes e técnicas para se escrever, usando vocabulários mais inclusivos e amenizando marcações de gênero desnecessárias. Possivelmente haverá, por parte de algumas pessoas, uma certa hostilização e um estranhamento a esta “nova” maneira de escrever e de se comunicar. As estruturas frasais parecerão pouco naturais, devido ao costume e aos hábitos enraizados desde sempre. No entanto, não será e não é tão difícil, assim, incorporar essas novas práticas que podem fazer a diferença para que tenhamos um mundo mais empático e inclusivo.

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